Do Metrópoles

Além dos riscos inerentes ao trabalho, os policiais do Distrito Federal convivem com uma ameaça constfacsimile_armasante por conta das armas que utilizam no exercício da profissão. Casos de disparos acidentais são recorrentes em delegacias e batalhões. Técnicos penitenciários, agentes de polícia e militares colecionam histórias e cicatrizes decorrentes do mau funcionamento dos equipamentos da marca brasileira Taurus. Diante das ocorrências registradas, o Instituto de Criminalística da Polícia Civil fez um teste por amostragem em 25 pistolas .40. Dez apresentaram falhas de segurança e dispararam ao cair no chão. O laudo, concluído este mês, foi obtido com exclusividade pelo Metrópoles.

As armas usadas nos testes pertencem à Polícia Civil e não apresentavam nenhum defeito aparente. Durante os testes, as pistolas foram jogadas em piso de concreto e borracha em cinco posições diferentes. Em três casos o projétil foi detonado e em sete houve disparo, mas sem alteração na munição. A solicitação para a avaliação do armamento foi tratada como urgente e partiu da Divisão de Controle de Armas e Explosivos (Dame).

Após verificada a falha, os técnicos desmontaram os equipamentos para análise das peças internas. De acordo com o documento, foi constatado que o ponto central para o tiro acidental é uma falha na trava de segurança. Quando há avaria, o projétil pode ser detonado sem o acionamento do gatilho.

Uma denúncia que trata sobre a aquisição das armas com defeito, foi aberta em 2015 no Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O caso segue em análise pelo promotor Marcelo Tannus Filho. O órgão também apura a denúncia de vítimas da Taurus em todo o Brasil que pedem para que os produtos defeituosos sejam retirados do mercado. O processo está no Núcleo de Defesa do Consumidor.

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Monopólio
Perito criminal e integrante da Força Nacional em Alagoas, Landislau Brito também analisou diferentes tipos de arma da marca nacional e detectou problemas. Em 2015, por exemplo, o policial periciou duas mil pistolas da Taurus e encontrou defeitos em um lote. Os armamentos foram enviados para a empresa e consertados. “O problema do mercado de armas no Brasil é o monopólio. É uma situação grave que precisa ser tratada com prioridade”, explicou Brito.

A Taurus é a principal fornecedora das forças de segurança do Brasil. Por conta da Lei 10.826/2003, as polícias só podem comprar armas de empresas estrangeiras se não houver modelo semelhante produzido nacionalmente.

Histórico
O problema é antigo e o laudo produzido pelo Instituto de Criminalística spo confirma o que os policiais já sabem. Em 2005, um agente de polícia deixou a arma cair em casa. A pistola disparou e atingiu a orelha direita dele. Em depoimento, ele chegou a alertar que o tio estava ao seu lado no momento do incidente e algo pior poderia ter ocorrido.

Outro caso registrado em 2008 mostra o quão vulnerável é a arma. Um agente da Divisão de Operações Especiais (DOE) estava em frente a um restaurante da 707 Norte, quando a arma caiu e disparou assim que teve contato com o chão. Por sorte, o projétil foi em direção ao céu e não atingiu ninguém.

O agente Luciano Vieira não teve a mesma sorte. Três anos depois, sua pistola .40 disparou e o atingiu na região da barriga e se alojou no ombro. Luciano ressalta a importância de um recall. Segundo ele, há evidências concretas de que existe um problema nas armas. “É muito importante o policial registrar ocorrência se houver qualquer problema. As pistolas precisam ser periciadas. A ocorrência também é mais uma prova que teremos sobre as constantes falhas”, explica.

Em abril do ano passado, um agente penitenciário foi alvejado na panturrilha enquanto se preparava, colocando o cinto tático, para um curso de intervenção. “Em momento algum houve contato manual com a arma. Foi prestado os primeiros socorros. O agente foi encaminhado ao Hospital de Base em estado grave”, consta na ocorrência.

O Metrópoles mostrou em fevereiro deste ano o vídeo feito por um policial militar do DF que mostra a fragilidade do equipamento. Segundo o policial, a submetralhadora da marca Taurus disparou dentro da viatura, mesmo com a trava de segurança acionada. O projétil atingiu o banco e o extintor de incêndio do veículo, mas poderia ter causado uma fatalidade caso a mira estivesse em outra direção.

O outro lado
Em nota, a Polícia Civil afirmou que tem conhecimento dos casos, pois quando ocorre defeito o policial deve registrar um boletim de ocorrência. As armas são recolhidas e encaminhadas ao Instituto de Criminalística. A corporação informou que há cinco registros de ocorrência policial envolvendo agentes da PCDF.

Até esta publicação, a PM, que também faz uso de armas da marca, não respondeu sobre os incidentes sofridos por militares. A empresa Taurus também não se pronunciou sobre o caso.

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