JORNAL DE BRASÍLIA
 
Do alto da torre
 
MOBILIZAÇÃO POLICIAL
Entidades representativas dos policiais estudam a possibilidade de mobilização em favor de projeto de lei do deputado Alexandre Leite, do DEM, que prevê pena de até 30 anos de reclusão para quem matar agentes públicos da área de segurança, como policiais, agentes penitenciários, oficiais de justiça, bombeiros militares, guardas civis, promotores e juízes. Atualmente, o crime de homicídio é punido pelo Código Penal com pena de reclusão de seis a 20 anos.

CORREIO BRAZILIENSE

JOGOS DE AZAR »
Polícia fecha mais um bingo
Operação conjunta de forças de segurança do DF e de Goiás desmonta cassino no Jardim Ingá, supostamente comandado por criminosos ligados a Carlinhos Cachoeira. Investigadores acreditam que Raimundo Queiroga, preso na Operação Monte Carlo, é um dos donos da casa
» KELLY ALMEIDA
Investigações das polícias civis do Distrito Federal e de Goiás dão indícios que homens ligados ao bicheiro Carlinhos Cachoeira continuam movimentando casas de bingos eletrônicos no Entorno. Na tarde de ontem, uma ação conjunta entre as duas corporações fechou um cassino que funcionava no Jardim Ingá (GO). Vinte máquinas de videobingo foram recolhidas. O lucro diário podia chegar a quase R$ 20 mil. Outro local visitado pelos agentes funcionou até a noite da última quarta-feira, mas encerrou as atividades na manhã de ontem, antes de os policiais chegarem.

Os agentes da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco) do DF e do Grupo Especial de Repressão ao Crime Organizado de Goiás (Gerco) chegaram ao primeiro endereço, na Cidade Ocidental (GO), por volta das 15h. No imóvel, um grande galpão com muros altos, havia apenas alguns homens que faziam reformas no espaço. Testemunhas garantem que os responsáveis pela casa começaram a retirar os equipamentos, cerca de 30, por volta das 9h de ontem. Na noite anterior, policiais monitoraram o local, que funcionava normalmente. O esvaziamento levanta a possibilidade de vazamento de informação.

No Jardim Ingá (GO), os contraventores não tiveram tempo de esvaziar uma chácara com 20 máquinas de videobingo. A jogatina funcionava nos fundos do terreno, que é alugado para eventos. No momento em que os policiais chegaram, duas pessoas faziam apostas e outras duas cuidavam do negócio. Também foram recolhidos R$ 3,9 mil que estavam nos equipamentos e no caixa, talões de recibos, aparelhos celulares, cadernetas com anotações e um terminal para o pagamento com cartões de débitos. Os indícios colhidos pelos agentes indicam que cada máquina rendia entre R$ 700 e R$ 800 diariamente. Todas serão periciadas pela polícia goiana.

Os agentes também encontraram R$ 3,9 mil, além de recibos, aparelhos celulares e cadernatas com anotações

Parceria
O delegado titular do Gerco, Alexandre Lourenço, informou que as casas estavam sendo monitoradas há pelo menos três semanas. Ele explicou que, geralmente, esses locais não funcionam no mesmo espaço por tanto tempo. “A grande dificuldade que temos em combater esses jogos é que a migração é muito rápida. Eles estão sempre preparados para sair com todos os equipamentos rapidamente. Também não deixam muitas máquinas em um único endereço para o prejuízo não ser tão grande”, detalhou o investigador.

Lourenço informou que a polícia ainda tenta descobrir a quem os administradores do local prestavam contas, já que, normalmente, as pessoas detidas nos cassinos não costumam colaborar com o trabalho de apuração. Apesar disso, informações dão conta que Raimundo Washington Queiroga é um dos responsáveis pelo bingo eletrônico. Ele é apontado como um dos homens de confiança do contraventor Carlinhos Cachoeira e foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, e na Operação Jackpot, da Deco (Leia Memória).

Apesar das mudanças rápidas promovidas pelos donos dos bingos, os agentes de Goiás e do DF garantem que continuarão monitorando e combatendo a ação dos bicheiros em parceria. “Quem perde com a união das polícias são os contraventores, que, há meses, não estão mais à vontade na exploração da jogatina. Os frequentadores estão assustados e os cassinos são fechados semanalmente”, ressaltou o delegado Fernando Cocito, adjunto da Deco.

MEMÓRIA
Seis meses de apuração
Após a prisão de Carlinhos Cachoeira, em 29 de fevereiro do ano passado pela Polícia Federal, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco), da Polícia Civil do DF, começou a monitorar a exploração de máquinas caça-níqueis na região. Durante seis meses, a Deco desmanchou sete casas de jogos que estariam ligadas ao grupo de Cachoeira. Elas estavam instaladas em Sobradinho 2, em Ceilândia, no Gama, no Jardim Botânico e até mesmo em áreas mais próximas ao centro do DF, como o Setor de Mansões do Lago Norte e as asas Sul e Norte. Cada uma rendia cerca de R$ 10 mil por dia, segundo a polícia. As apostas eram altas e as máquinas reconheciam inclusive notas de R$ 100. Oitenta equipamentos foram apreendidos ao longo das apurações. Aos clientes, na maioria idosos, era oferecido serviço de táxi, que buscava os apostadores em pontos estratégicos, além de alimentação.

Em 24 de agosto, os policiais da Deco deflagraram a Operação Jackpot. Foram presos temporariamente Raimundo Washington de Sousa Queiroga, Otoni Olímpio Júnior e Bruno Gleidson Soares Barbosa. Antônio José Sampaio Naziozeno e Edvaldo Ferreira Lemos ficaram foragidos. Naziozeno se apresentou dias depois. Os agentes continuaram monitorando a exploração de máquinas caça-níqueis e, de agosto até agora, fecharam pelo menos outras 10 casas de bingo eletrônico em todo o DF. Além dos homens ligados a Cachoeira, a Deco identificou novos exploradores da jogatina ilegal, que se fortaleceram com as apreensões das máquinas do grupo concorrente, mas também tiveram salas fechadas.

Em parceria com a polícia e com o Ministério Público goianos, os agentes do Distrito Federal também fecharam casas no Entorno. Uma ação em dezembro passado desativou pelo menos 13 locais instalados em regiões de Goiás. Em 12 de dezembro, foram fechados um bingo em Valparaíso, com cinco máquinas, e três casas que tinham os equipamentos eletrônicos em Valparaíso. A polícia também encontrou outras 15 máquinas em Planaltina de Goiás. (KA)

SEGURANÇA »
PM investe em arma não letal
Corporação comprou 3.425 pistolas elétricas a um custo total de R$ 10,4 milhões. Os tasers, em uso pelo Batalhão Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam), vão compor o kit de equipamentos dos policiais durante os megaeventos esportivos
» GABRIELLA FURQUIM
A Polícia Militar do Distrito Federal comprou 3.425 pistolas elétricas incapacitantes, modelo Spark 800, e 5 mil munições da arma não letal. Os novos equipamentos custaram R$ 10,4 milhões ao cofre da corporação. A previsão é de que os dispositivos elétricos comecem a ser utilizados pelos policiais militares durante a Copa das Confederações. Os integrantes de todas as unidades e dos batalhões militares serão capacitados para utilizar as pistolas de choque. A empresa contratada, Condor Tecnologias Não Letais, é a única com autorização do Exército brasileiro para vender a tecnologia no país e tem o prazo de 180 dias para entregar os equipamentos à polícia brasiliense.

De acordo o coronel Robmilson Araújo Lima, chefe do Departamento de Logística e Finanças da PMDF, a iniciativa de equipar os agentes com armas elétricas é uma adequação da corporação às exigências de entidades de direitos humanos e da Organização das Nações Unidas (ONU), que, desde 1990, recomendam a adoção de tecnologias não letais. “Com as armas de choque é possível aplicar o conceito de uso progressivo da força. A arma cria a possibilidade de que um policial, ao atender uma ocorrência, só tire a arma de fogo da cintura em situações extremas. A tecnologia vai permitir que a polícia aja de forma menos violenta, sem provocar lesões e mortes”, explica.

O aluno da Universidade de Brasília (UnB), Rafael Pinheiro Rocha, 24 anos, foi atingido por um tiro de pistola elétrica durante uma manifestação contra a aprovação do novo Código Florestal, no Senado, em novembro de 2011, e teme que o equipamento seja usado indevidamente. “Não é letal, mas causa uma dor tremenda. Senti todos os meus músculos se contraindo e caí no chão. Se o policial tentasse conversar comigo talvez resolvesse o impasse sem precisar usar a arma. É esse o uso indevido que temo diante do despreparo atual da polícia”, desabafa o estudante de geologia.

O emprego da arma de imobilização é capaz de produzir choque de até 50 mil volts, uma descarga quatro vezes menor do que os 200 mil volts que podem ser letais. No entanto, a repetição dos disparos contra uma pessoa pode levá-la à morte. Além disso, a corrente elétrica pode causar sérios danos ao corpo humano se aplicada em locais inadequados, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia do DF, Renault Mattos Ribeiro Júnior. “Se o disparo atingir certas regiões do corpo, como a cabeça e o tórax, pode provocar paradas cardíacas. O cérebro e o coração são áreas mais irrigadas e podem propagar a descarga elétrica de forma mais intensa”, explica o cardiologista.

De acordo com Renault, o ideal é que os policiais sejam orientados a disparar nas extremidades do corpo, como mãos e pés. Além disso, ele alerta que uma pessoa com doença cardíaca pode morrer se for atingida pela pistola elétrica. “Principalmente quem usa marca-passo e desfibriladores automáticos. Mas não acredito que pessoas com uma debilidade física tão grande sejam capazes de resistir à prisão ou de tentar fugir da polícia. O maior risco é a aplicação do choque em regiões inapropriadas do corpo humano”, explica. O cardiologista diz que, com o devido treinamento dos policiais, a tecnologia pode ser utilizada sem oferecer riscos à população. “Nas mãos erradas e usado de forma maldosa e agressiva, um cassetete pode matar. Se usadas de forma correta, as pistolas elétricas podem ser uma opção para as forças de segurança.”

De acordo com o coronel Lima, as pistolas serão usadas no policiamento durante as copas das Confederações e do Mundo. “As armas não serão de uso exclusivo dos grandes eventos esportivos. A tropa será habilitada a manusear os equipamentos em diferentes situações em benefício da população”, afirma.

O militar garante que, além do treinamento e da capacitação dos policiais, a utilização dos taser será acompanhada de perto pela Corregedoria da corporação. “As armas possuem um sistema de auditagem que revela quando e onde foi apertado o gatilho. Em caso de uso indevido, será possível identificar e combatê-lo”, explica. Desde julho do ano passado, o Batalhão Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam) utiliza os equipamentos. Essa experiência será compartilhada e ajudará no treinamento dos demais militares, de acordo com o coronel Lima.

Autorizados
Atualmente, no DF, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), as Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), além de órgãos como o Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT) e o Senado Federal, utilizam os tasers. Quem autoriza e fiscaliza o uso desses equipamentos é a Polícia Federal.

Recuo governamental
Em 2009, durante o governo tampão de Rogério Rosso, o Departamento de Trânsito (Detran) comprou 220 pistolas elétricas. O objetivo era usar o equipamento nas operações especiais, como as blitzes. O argumento do Detran era de que o equipamento poderia conter condutores alterados, principalmente os embriagados, que se recusam a obedecer às ordens dos fiscais do órgão. Em 2011, o GDF treinou 200 agentes de trânsito para o uso das pistolas. A iniciativa provocou polêmica e motivou reações das instituições de defesa dos direitos humanos. O Ministério Público do DF e Territórios e a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) se manifestaram com veemência contra a utilização dos tasers. Diante da repercussão negativa, o Executivo local recuou e suspendeu o uso das armas por agentes do Detran. Os equipamentos, que custaram R$ 335 mil aos cofres públicos, ficaram encaixotados até julho do ano passado. A Secretaria de Segurança Pública criou um grupo para discutir a destinação dos equipamentos e decidiu repassá-los à Polícia Militar.

CARA A CARA

Arthur Trindade, é professor adjunto da Universidade de Brasília e suas principais áreas de pesquisa são violência, violência policial, segurança pública, democracia e cidadania. É coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança (Nevis) da UnB

“É uma iniciativa importante, mas que precisa ser acompanhada de treinamento adequado para não causar transtornos. O trabalho dos policiais com a nova tecnologia deve ser monitorado para evitar o uso indevido e os abusos. Só comprar a arma de choque não basta. Sem treinamento adequado, o policial pode, por exemplo, usá-la em situações em que o diálogo e outras atitudes não agressivas resolveriam. A utilização de uma nova tecnologia gera desconfiança e insegurança à população, ainda mais com as notícias sobre mortes e abusos com o uso do taser em outros estados e países. É importante normas claras e que a polícia as cumpra à risca. As iniciativas que visam diminuir o uso da força policial são importantes.”

Marcelle Figueira, é coordenadora do curso de graduação tecnológica em segurança e ordem pública da Universidade Católica de Brasília e foi coordenadora de Análise Criminal na Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça

“O investimento em armas não letais é uma iniciativa a ser aplaudida. A implantação da tecnologia é extremamente positiva. Ela cria a possibilidade de a polícia agir sem usar as armas de fogo, que causam danos muito mais sérios. É um recurso anterior, menos violento e capaz de cessar uma ação criminosa sem vítimas.  Alguém atingido por uma taser tem muito mais chances de sobreviver do que alguém atingido por uma de calibre .40. As armas de choque não são novidades.Exemplos de outros países, estados e até aqui do Distrito Federal podem ser usados na capacitação dos policiais. O treinamento é importante. Mas não acredito que por portar uma arma menos letal os policiais vão usá-la sem controle e em situações inadequadas.”

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