Do Jornal de Brasília

De longe, um paredão alto de concreto e arame farpado impõe certo respeito. Todavia, basta se aproximar da estrutura para comprovar o que as últimas fugas dos centros de internação parecem indicar: há falhas na segurança do Sistema Socioeducativo do Distrito Federal. Ontem, mesmo dia em que seis menores infratores escaparam da Unidade de São Sebastião (UISS), a reportagem esteve no local e identificou muitas delas.

Em apenas uma tarde, foi possível observar que parte da cerca em cima do muro está danificada e todas as quatro guaritas, uma em cada canto, não contavam com a presença de seguranças. A equipe do Jornal de Brasília, ao caminhar nas laterais da unidade, também não foi abordada em nenhum momento.

Duas frestas de tamanho razoável estão à mostra no paredão. Pelos buracos, é possível observar a movimentação no interior ou, até mesmo, passar objetos como celulares ou droga. Isso porque, entre um concreto e outro, existe uma fina camada de isopor, o que supostamente teria favorecido as aberturas.

Do lado de fora do local, fios com pedras, pastas de dente, sabonete, pequenas trouxinhas e frascos de desodorante chamam atenção ao ficarem pendurados no arame farpado.

Questionado sobre a situação, o guarda noturno não soube explicar. “Não faço a menor ideia para que serve. Não deve ser nada. Eles (internos) ficam sem ter o que fazer e jogam isso”, relatou.

A ação

Os seis adolescentes conseguiram fugir da UISS por volta das 9h30 de ontem. Horas depois, a Polícia Militar conseguiu recapturá- los próximo ao local. De acordo com a corporação, eles empurraram os funcionários e escaparam pulando o muro.

Ainda segundo os militares, dois foram surpreendidos no momento do fuga por não conseguirem escalar a estrutura. Os adolescentes tentaram resistir em cima de uma guarita, mas acabaram se entregando por volta das 11h.

A Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude confirmou que falta reforço no sistema. “Essa carência é geral, vale para todos os sistemas. Não somos diferentes. Entretanto, estamos providenciando uma melhora”, disse o titular da pasta, secretário Aurélio Araújo.

Tentativas

Apesar disso, ele ressaltou que a secretaria tem se antecipado e evitado várias situações de fuga. “As tentativas são recorrentes. Lidamos com isso quase que mensalmente. Faz parte do nosso cotidiano”, acrescentou o secretário, ao comentar os dois últimos casos. “Foi apenas um fuga e outra tentativa este ano. No caso do domingo passado (no Recanto das Emas), um vídeo com imagens do circuito interno já está sendo analisado pela Corregedoria do órgão. Se, de fato, houve uma falha, isso será apurado”, declarou. Araújo fez referência ao fato de o menor infrator possivelmente ter sido ajudado por um visitante.

Araújo completou que 240 vagas poderão ser preenchidas em breve, após o curso de formação dos agentes, para reforçar o quadro.

O Ministério Público acompanha e apura as fugas. O órgão informou ao JBr. que é necessário aguardar o recebimento de um relatório emitido pelas unidades de internação para entrar na questão.

Época comum para as investidas

Esta época do ano é mais propícia às fugas, alertou o presidente do Sindicato dos Servidores da Carreira Socioeducativa do Distrito Federal, Cristiano Torres. “No fim do ano, alguns internos não ganharam o benefício do saidão, o que intensifica a vontade de escapar”, explicou.

“Estamos falando de internos perigosos. Alguns fazem parte do crime organizado. Aqui não é creche, não”, Cristiano Torres, do Sindicato dos Servidores da Carreira Socioeducativa.

Ainda que esperançoso com a possível contratação de cerca de 200 novos servidores, Torres declarou, no entanto, que o número não é suficiente. “Para normalizar a situação, teríamos que ter 500 pessoas a mais ou dobrar o efetivo atual, que é de mil agentes”, afirmou.
Atualmente, são sete unidades de internação; cinco de semi-internação e 15 de liberdade assistida.

O presidente do sindicato detalhou o cenário atual do sistema. “Não temos gente para ocupar as guaritas nem equipamentos de segurança. O problema é que estamos falando de internos perigosos. Alguns, inclusive, fazem parte do crime organizado fora das unidades. Aqui não é creche, não”, concluiu.

População ao redor teme violência

Enquanto isso, os vizinhos dos centros de internação se consideram os mais prejudicados. Para quem mora ao lado da unidade de São Sebastião, por exemplo, a insegurança é companhia constante. Mãe de duas meninas, de seis e oito anos, uma dona de casa de 28 anos vive com a incerteza sobre uma próxima fuga.

“Quando começa a escurecer, ninguém sai mais de casa. Fecho as portas e solto os cachorros na tentativa de me sentir protegida. Só me mudei porque tenho família perto daqui. Raramente, vejo uma viatura passando”, justificou ela, que mora há oito meses no local.

Moradora do Núcleo Rural Nova Betânia, também em São Sebastião, uma cabeleireira de 42 anos compartilha do mesmo medo. Para voltar à casa, ela precisa pegar um ônibus ou mototáxi em frente à unidade. Mãe de duas crianças de seis e nove anos, ela também teme pela vida dos filhos. “Hoje (ontem) mesmo, estou apavorada. Soube da fuga recente. Normalmente, minha casa vive trancada por causa disso. Agora então, vou aumentar a segurança. Não deixo meus filhos brincarem na rua”, relatou.

Para a cabeleireira, não há dúvidas de que falta segurança na unidade. “Eu passo aqui todos os dias e nunca vi nenhum guarda nas guaritas elevadas. Isso é um absurdo com a população que paga imposto. Para piorar, só passa um ônibus, e eu entro em pânico quando anoitece e ainda não consegui chegar em casa. É muito revoltante ter que viver assim, sempre com medo de uma fuga. Parece que eu é que sou a criminosa”, finalizou.

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